domingo, 3 de junho de 2012

O Segredo dos Anos Bissextos Reforma do calendário, em 1582, introduziu um dia a mais em fevereiro para evitar desencontros entre o ano solar e o calendário oficial


por Paulo Sergio Bretones

©daniel m. silva/ Shutterstock
Estamos num ano em que fevereiro tem 29 dias, o que ocorre a cada quatro anos. Para entender isto, é importante lembrar o conceito de ano, ou seja, o tempo que a Terra leva para dar uma volta ao redor do Sol. Na Antiguidade, o ano era contado pelo intervalo de tempo decorrido entre duas passagens consecutivas do Sol pelo equinócio vernal, ponto no céu onde o Sol cruza o equador celeste saindo do hemisfério sul indo em direção ao norte. Essa passagem ocorre próximo ao dia 21 de março, no início da primavera do hemisfério norte.

O ano dura aproximadamente 365,25 dias, ou seja, cerca de 365 dias e 6 horas, e assim normalmente os anos têm 365 dias e a cada 4 anos soma-se um dia para acertar esta diferença. E por que se escolheu o mês de fevereiro para esse acerto?

O calendário que utilizamos vem dos romanos, que inicialmente adotavam um ano de 304 dias e 10 meses: martius, aprilis, maius, junius, quintilis, sextilis, september, october,november e december. Com o tempo, a contagem dos dias doano foi ficando defasada e na época do imperador Numa Pompílio, no século 7 a.C., estava atrasada em 51 dias em relação ao início das estações. Pompílio então criou mais 2 meses: janeiro e fevereiro, e o ano passou a ter 354 dias. Além disso, criou um 13o mês, intercalado para adequar o calendário às estações do ano. Esse mês, chamado de mercedonius, era intercalado entre 23 e 24 de fevereiro, no fim do ano na época, que se iniciava em março. Ocorre que esse mês apenas existia quando fosse do interesse do governante de cada cidade.

Ainda assim, sob o reinado de Caio Júlio César (100-44 a.C.), as intercalações do 13º mês eram feitas de maneira tão desorganizada que em 46 a.C. o calendário solar tinha uma defasagem de 80 dias em relação ao início das estações. Então Júlio César chamou o astrônomo e filósofo egípcio Sosígenes, da Escola de Alexandria, para uma reforma no calendário. Dessa forma, o ano de 46 a.C. passaria a ter 80 dias a mais, ou seja, 445 dias; e por isto foi o chamado “Ano da Confusão”.

Assim, no chamado “calendário juliano”, o ano passou a ter início no dia 1º de janeiro, tendo 365 dias e 1/4, divididos em 12 meses de 30 e 31 dias, com exceção de fevereiro, que tinha 28 dias, passando a 29 nos chamados anos bissextos aos quais a cada 4 anos seria somado 1/4 de dia, perfazendo um dia a mais, ou seja, um ano com 366 dias.

Mas o curioso é que este nome não vem do fato de que seus 366 dias terminam em dois 6. O dia do início de cada mês no calendário romano era chamado “calendas” e o dia mais importante era 23 de fevereiro, isto é, o sexto dia antes das calendas porque o último mês do ano era fevereiro. Então, nesse dia sagrado e em homenagem ao deus Termo, ou Terminus, celebravam- se em Roma festas de grande animação popular. Trocavam- se presentes, libertavam-se escravos, promoviam-se espetáculos de gladiadores no circo, as famosas termálidas (algo parecido com o que chamamos de carnaval). César queria introduzir um dia a mais que levaria o nome de mercedônio em fevereiro em homenagem a Fébrua, a deusa da purificação (daí o nome fevereiro). Mas como explicar ao povo que o sexto, o dia mais sagrado para eles, deixaria de ser sexto, porque a cada quatro anos haveria um sétimo? A solução não foi difícil: o dia mercedônio que seria inserido foi considerado um “adendo” e chamado de “bis sexto” – ou seja, mais um sexto. Em outras palavras, o dia intercalado seria o 24 de fevereiro, ou seis dias antes das “calendas” de março. Assim, esse dia era contado duas vezes (bis), sendo chamado de “bissextus ante calendas martii”, que, com o tempo, passou a ser “bissexto”. Dessa forma, fevereiro ficaria com 29 dias.

No calendário juliano, o mês quintilis passou a chamar-se julius, em homenagem ao imperador. Posteriormente, o mês sextilis passou a se chamar augustus em homenagem a Augusto, outro imperador romano, que aperfeiçoou o calendário juliano. Mas, dizem, como era muito orgulhoso, não quis que o mês a ele dedicado – augustus, ou agosto – tivesse menos dias que julho, que homenageava Júlio César. Então, “roubou” mais um dia de fevereiro, que ficou com 28 dias, e passou- o para agosto, que ficou com 31 dias.

Ocorre que, mesmo sendo mais preciso que os anteriores, o calendário juliano ainda não era exato. Em 1582, já acumulava um atraso de dez dias em relação ao ano solar. Foi então que o papa Gregório 13, seguindo os conselhos de astrônomos, resolveu corrigir de vez a diferença entre o calendário oficial e o solar. Isso ocorreu porque, na verdade, o chamado ano solar tem 365,242199 dias. Se fizermos a decomposição deste número em parcelas teremos: 365,242199 = 365 + 0,25 - 0,01 + 0,0025 - 0,007801, que pode ser escrito em frações: 365,242199 = 365 + 1/4 - 1/100 + 1/400 - 1/3300. Em outras palavras, o ano tem 365 dias, deve-se somar 1 dia a cada 4 anos, diminuir 1 dia a cada 100 anos, somar 1 a cada 400 anos e finalmente eliminar 1 dia a cada 3.300 anos.Assim, naquela época, o papa começou eliminando sumariamente os dez dias de atraso. Depois, estabeleceu que os anos de virada de século (1800, 1900 etc.) que fossem múltiplos de 100 não seriam bissextos, exceto quando fossem também múltiplos de 400. Dessa forma, retirava-se 1 dia a cada 100 anos e adicionava-se 1 a cada 400 anos. Por isso, o ano 2000 foi bissexto por ser múltiplo de 400. Com essa providência, o calendário chamado “Gregoriano” só acumula um dia de erro a cada 3.300 anos solares.
Paulo Sergio Bretones professor de astronomia; é autor dos livros Os segredos do Sistema Solar e Os segredos do Universo, da Atual Editora.
FONTE:http://www2.uol.com.br/sciam

Relógio das Culturas O que é o tempo? A resposta varia, dependendo da sociedade


por Pelos editores
Gavin Hellier Corbis; Bart omeu Amengual age Fotostock; Johnny Stockshooter Aurora Photos; Oscar Okapi Aurora Photos
Atrase uma hora no Brasil e ninguém nem irá se importar muito. Mas, na Suíça, deixe alguém esperando mais que cinco ou dez minutos e terá muito a explicar. Em algumas culturas o tempo é elástico, em outras, monolítico. De fato, o modo como membros de uma cultura percebem e usam o tempo reflete as prioridades da sociedade e até sua visão do mundo.

Cientistas sociais registraram grande diferença no ritmo de vida em vários países e em como as sociedades percebem o tempo: se como uma flecha penetrando o futuro ou como uma roda em movimento, onde passado, presente e futuro giram sem parar. Algumas culturas combinam tempo e espaço: o conceito dos aborígenes australianos do “tempo de sonhos” abrange não só o mito da criação, mas também o método de selocalizar no campo. Mas algumas visões de tempo interessantes, como o conceito de ser aceitável uma pessoa poderosa manter alguém de status inferior esperando, parecem desconhecer diferenças culturais. Elas são universais.

O estudo de tempo e sociedade pode ser dividido em pragmático e cosmológico. Do ponto de vista prático, nos anos 50, o antropólogo Edward T. Hall escreveu que as regras de tempo social compõem uma “linguagem silenciosa” para determinada cultura. As regras nem sempre são explícitas, analisou ele, mas “subentendidas... Ou são cômodas e familiares, ou erradas e estranhas”.

Em 1955, ele descreveu na Scientific American como percepções diferentes de tempo podem levar a mal-entendidos entre pessoas de culturas diversas. “Um embaixador que espera um visitante estrangeiro mais que meia hora deve entender que se este último ‘mal murmura uma desculpa’ isto não é necessariamente um insulto”, exemplifica. “O sistema de tempo no país estrangeiro pode ser composto de unidades básicas diferentes, então o visitante não está tão atrasado quanto parece. Deve-se conhecer o sistema de tempo do país, para saber a partir de que ponto as desculpas são realmente necessárias... Culturas diferentes atribuem valores diversos para as unidades de tempo.”

A maioria das culturas do mundo agora usa relógios e calendários, unindo a maior parte do globo no mesmo ritmo geral de tempo. Mas isso não significa que todos acertem o mesmo passo. Algumas pessoas se estressam com o ritmo da vida moderna e o combatem com o movimento “slow food” enquanto em outras sociedades as pessoas sentem pouca pressão no gerenciamento do tempo.

“Uma das curiosidades do estudo de tempo está no fato de ele ser uma janela para a cultura”, avalia Robert V. Levine, psicólogo social na California State University em Fresno. “É possível obter respostas sobre valores e crenças culturais: uma boa ideia do que importa para as pessoas.”

Levine e seus colegas fizeram estudos do “ritmo de vida” em 31 países. Em A geography of time, publicado pela primeira vez em 1997, Levine descreve a classificação dos países usando três medidas: velocidade para andar nas calçadas urbanas, rapidez de um funcionário do correio em vender um simples selo e a precisão dos relógios públicos. Baseado nessas curiosas variáveis ele concluiu que os cinco países mais rápidos são Suíça, Irlanda, Alemanha, Japão e Itália e os cinco mais lentos, Síria, El Salvador, Brasil, Indonésia e México. Os Estados Unidos ocupam a 16º lugar, próximo
ao mediano.

FONTE:h
ttp://www2.uol.com.br/sciam/

sábado, 21 de janeiro de 2012

O sexo do ponto de vista histórico



Peter Stearns, Ph.D. em História pela Universidade de Harvard e autor do livro História da sexualidade


Engana-se quem pensa que o Ocidente sempre foi mais avançado em questões sexuais do que o Oriente. Pelo menos até o século passado, as sociedades cristãs-ocidentais eram oficialmente mais pudicas em relação ao sexo do que a maioria das sociedades asiáticas. Ainda há um século e meio, os códigos morais “vitorianos” na Europa Ocidental e nas Américas tentavam reprimir a masturbação, a expressão sexual feminina e a relação sexual antes do casamento muito mais do que sociedades muçulmanas, hindus ou confucionistas. “O Islã sempre chamou a atenção, por exemplo, para o prazer sexual da mulher no casamento. A questão é que existem sociedades e indivíduos mulçumanos diferentes”, explica o historiador Peter Stearns, que teve traduzido para o português o livro Sexuality in World History (2009) – no Brasil, o lançamento da obra é recente e recebeu o título História da sexualidade, pela Editora Contexto.

Se ainda existem regiões mulçumanas que apregoam o apedrejamento público para mulheres que praticam o adultério, Stearns lembra que são locais tidos hoje como exceção. Por outro lado, ele diz que há cada vez mais uma preocupação quanto às influências ocidentais no Oriente, o que talvez explique o que levou algumas sociedades a adotar uma postura mais rígida.

O livro de Stearns mostra diferentes condutas sexuais no mundo dentro do contexto histórico. O tema do homossexualismo, por exemplo, é abordado na obra de maneira cronológica e por regiões. “Nas cavernas o bissexualismo era comum e aceito socialmente. Os mulçumanos não encaravam homossexuais como aberrações, como muitos hoje o fazem, e a China também não condenava, porém mudou de postura com a chegada do comunismo”, diz.

Stearns lembra do posicionamento dos protestantes em relação às questões sexuais: foram contra o catolicismo e defenderam que a castidade não havia alçado as pessoas a um nível espiritual mais elevado do que o indivíduo que era casado. Dentro desse contexto, em 1684, um manual direto e explícito de nome A obra-prima de Aris­tóteles chamou a atenção na Inglaterra. Ele trazia informações sobre como obter o prazer sexual partindo do pressuposto que o casal deveria buscar esse objetivo. Ainda no livro, o historiador fala das bases do vitorianismo e os esforços para frear a sexualidade – a atividade sexual deveria ser limitada ao casamento e os jovens deveriam ser contidos. Não por menos, o historiador lembra de pinturas que ilustraram, entre os séculos 18 e 19, a desonra que se abatia em uma família por causa de uma filha que engravidara sem estar casada.

Na Era Vitoriana (meados do século 19), a masturbação foi tida como algo de extremo ris­­co, pois poderia causar dificulda­­des mentais, envelhecimento precoce, esterilidade e até ce­­gueira. Em entrevista, por e-mail à Gazeta do Povo, Stearns fala mais da re­­pressão sexual no Oriente e de outros temas abordados no livro.

As leis iranianas são muito rígidas para nós brasileiros. É uma herança do islamismo?

As leis no Irã e em outras sociedades muçulmanas são muito rigorosas quanto a alguns aspectos da sexualidade. Isso reflete a lei islâmica tradicional, que tentava restringir a sexualidade ao âmbito do casamento e durante muito tempo prescreveu punições potencialmente severas para comportamentos como o adultério. Mas na maior parte da tradição islâmica, em situações como o adultério, costumava-se preferir a reconciliação, não a punição. O novo impulso, em algumas sociedades, na direção de uma maior rigidez é resultado não só de uma interpretação seletiva da tradição, mas de séria preocupação com influências estrangeiras e hábitos “modernos” que, para algumas autoridades, soam como um novo perigo.

Houve interpretações diferentes para outros temas também?

Muitas sociedades muçulmanas agora adotam uma postura mais dura contra a homossexualidade, algo que não está na tradição islâmica. Na verdade refletem, inicialmente, um desejo de imitar o Ocidente, lá atrás, no final do século 19, quando as autoridades ocidentais criticavam o Islã por sua liberalidade em questões de sexo. Portanto, há um conjunto de fatores em curso aí.

Quais países do mundo islâmico não são tão rígidos assim?

Há regimes seculares no mundo islâmico (a Síria ou a Turquia, por exemplo) nos quais as normas mais rígidas do islamismo não são aplicadas. E há tradições mais antigas, como o das danças sensualmente expressivas, que persistem em muitas regiões também. E quero insistir, mais uma vez, que o Islã, tradicionalmente e ainda hoje, incentiva a expressão sexual e o prazer dentro do casamento.

Como o senhor aborda o tema da prostituição?

A prostituição há muito tempo é comum nas cidades do mundo islâmico, como tem sido em concentrações urbanas de qualquer sociedade. A maioria das sociedades não tentou eliminá-la, ainda que, durante o século passado, tenha havido esforços recorrentes para incentivar maior higiene nessa prática. Há indícios de prostituição já nas primeiras cidades da Antiguidade, por isso a noção de que essa é uma das mais antigas profissões do mundo não chega a ser inverossímil. Vários governos tentaram proibi-la, regulamentá-la – por exemplo, no final do século 19, tentando limitar a atividade aos distritos da “luz vermelha” nas Américas, ou, mais recentemente, ao impor inspeções de higiene –, ou mesmo organizá-la de modo a que rendesse algum dinheiro ao Estado. Há muitas diferenças de uma sociedade para outra e ao longo do tempo.

Como se dava a intervenção dos governos no controle e nas recomendações sobre o comportamento sexual?

Há muito tempo e de forma recorrente os governos empreendem tentativas de regulação sexual. Nem sempre se saíram muito bem. Mas os esforços para fazer cumprir as leis contra o adultério, a prostituição ou os “desvios” têm sido constantes desde o Código de Hamurabi. O governo dos Estados Unidos, não faz muito tempo, atuou no sentido de limitar o acesso dos adolescentes a alguns meios de controle de natalidade, promovendo campanhas de abstinência sexual, para ficar num exemplo atual apenas. Obviamente, os defensores de doutrinas, religiosas ou não, que preconizam determinado comportamento sexual como adequado procuram, por vezes, a chancela do governo para fazer valer suas ideias.

Tradução: Christian Schwartz
Fonte: Gazeta do Povo
http://historica.me/

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